Há 3 anos, Fortaleza finalmente conseguia sair da Série C

Após vencer o Tupi no jogo de ida por 2x0, Fortaleza perde no jogo da volta por 1x0 e consegue sair da Série C após 8 longos anos.

23 de setembro de 2020

Há três anos, o Fortaleza conseguiu se livrar daquele que foi um dos maiores martírios de sua história centenária: a Série C. Foram 8 longos anos na terceira divisão do campeonato brasileiro até o duelo contra o Tupi. Na década de 1990, o Leão disputou outras seis vezes a terceirona, em 1990 e de 1995 à 1999. Mas nada se comparou ao que o clube viveu entre 2010 e 2017. 

Depois do rebaixamento na Série B em 2009, o objetivo era retornar o mais rápido possível à segunda divisão nacional. Só que ao contrário do que diz o ditado “a pressa é inimiga da perfeição”, o Fortaleza chegou a fazer campanhas praticamente perfeitas, mas não conseguia o acesso, no tal jogo do mata-mata. Assim foi em 2012, 2014, 2015 e 2016. 

Mas também houve campanhas em que nem da primeira fase o clube passou, como em 2010, 2011 e 2013.

Depois de três anos seguidos de eliminações para Macaé, Brasil de Pelotas e Juventude, o ano de 2017 chegava para mais um campeonato de incertezas após as frustrações. O campeonato começou logo com derrota, 1x0 para o Remo, fora de casa. No segundo jogo, vitória contra o Botafogo-PB pelo mesmo, 1x0. 

Diferente de anos anteriores, em que o Fortaleza conseguia se classificar com rodadas de antecedência, e ficava de “flozô” só esperando a chegada dos jogos decisivos, em 2017 a classificação veio depois de uma vitória suada, sofrida e chorada em cima do Moto Club, por 1x0, com gol de Ronny. Se não vencesse o Leão poderia mais uma vez ser eliminado na primeira fase. 

Time com o passaporte carimbado, de novo, para o mata-mata. Uma diferença para os anos anteriores: pela primeira vez o “jogo do acesso” não aconteceria com o mando do Fortaleza, no Castelão. A partida decisiva seria em Juiz de Fora/MG, cidade sede do Tupi, adversário na luta pela subida. 

O goleiro Marcelo Boeck relembrou momentos marcantes deste fato histórico:

“Eu lembro daquela semana entre o Moto Club e o Tupi. Teve aquele emblemático treino aberto lá no Pici onde o nome da faixa mudou, não era mais “queremos o acesso”, mas “juntos lutaremos pelo acesso”. Eu acho que aquela semana lá foi emblemática, aquela semana marcou muito a gente e eu acho que depois daquela semana lá que a gente realmente incorporou aquilo que deveria ter sido feito desde o início e aí conseguimos de repente a realização de um sonho muito grande”.

Dia 16 de setembro. Fortaleza e Tupi fizeram o primeiro jogo do mata-mata. Naquele encontro, o Castelão não estava com capacidade máxima, como nos outros jogos decisivos. Talvez a desconfiança das eliminações anteriores tenham deixado o torcedor com o “pé atrás”. Jogo tenso. Primeiro tempo terminou 0 a 0. Na etapa final, finalmente a torcida pôde comemorar. Bruno Melo e Leandro Lima fizeram a alegria dos mais de 40 mil presentes ao Castelão. Pelas chances criadas, o placar poderia ter terminado com uma goleada tricolor.

Foi a primeira vez em que o Fortaleza conseguiu levar uma vantagem para o segundo jogo.

Sete dias depois, dia 23 de setembro, o Fortaleza estava no interior mineiro para uma nova tentativa de acesso. Com o 2 a 0 obtido no primeiro jogo, até uma derrota por um gol de diferença tiraria o tricolor da Série C. E assim foi. E que sofrimento! Aos 37 do segundo tempo, Fernando fez 1 a 0 para o Tupi. Valei-me, Deus! Mais um gol do time mineiro e a decisão da vaga seria nos pênaltis. Já no fim do jogo, uma defesa que ficou para a história. Um chute do volante Marcel, de longe, a bola foi no ângulo esquerdo. A bola tinha o caminho do gol, mas Boeck pula, de mão troca, evita o gol do Tupi e protagoniza uma das imagens mais emblemáticas do Fortaleza. Foi a defesa do acesso! 

“E aí eu posso dizer que eu tive uma trilogia, né, desde o Moto Club eu fiz nos três jogos, o do Moto Clube e os dois do Tupi eu fiz uma defesa em cada jogo que marcou muito. E logicamente depois daquela defesa lá no final do jogo do Tupi lá em Juiz de Fora, dentro de casa, praticamente, porque 10 anos, eu vivo lá há 11 anos lá, porque minha esposa é de lá, eu lembro que no final eu já via o árbitro levantando a placa dos acréscimos e eu olhei pra torcida e falei assim “vamo lá, ajuda aí!” E eu olhava pra eles e eles não tinham reação nenhuma porque aquela apreensão de oito anos tava lá, naquele momento. Só que aí eu lembro dos minutos finais que a gente dentro de campo tava muito tranquilo e com muita certeza do que nós estávamos fazendo naquele momento. Quando há o apito final, então, a gente prepara durante o ano todo qual será a comemoração do acesso. Mas chega a hora do apito final e nada daquilo acontece e eu só tinha forças pra cair no chão e agradecer por que então aquele propósito de não terminar a carreira, de querer vir pro Fortaleza, querer aceitar o desafio, de viver o ano que eu vivi aqui profissionalmente e individualmente falando muito bom, terminou naquilo que era inimaginável pras pessoas que vinham acompanhando a gente,  mas a gente, eu como jogador, eu como família, a gente tinha uma certeza muito grande! E quando aconteceu, durante aquela semana eu já tava chorando mas depois daquele jogo, então, eu não podia ver nada, nenhuma postagem, nenhuma mensagem, e olha que não foram poucas, que eu me emociono. Só que a história ainda não acabou. A história nos reservou ainda mais momentos e eu creio profundamente que nós vamos ter grandes momentos aqui, grandes vitórias ainda aqui no Fortaleza”.

Oito anos depois da queda para Série C, o Fortaleza conquistava finalmente o acesso. O clube ali também mudava de status. No ano seguinte, mais uma acesso. Em 2019, a melhor colocação da sua história na Série A.

“Minha maior imagem é quando a gente chega no aeroporto, aí o caminhão de bombeiro tá parado atrás dum muro muito alto e a gente só escuta a torcida do outro lado. Aí quando os jogadores começam a subir, eu acho que eu era o quinto ou o sexto a subir. Quando eu subi o caminhão de bombeiro e vi aquela multidão que saiu das suas casas e tava há 8 anos com aquele grito engasgado e elas olharem pra mim e falarem assim “muito obrigado!”        


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